terça-feira, 24 de março de 2015

Como analisar Obras de Arte

Ao estudarmos os conceitos de beleza relacionados à estética percebemos que qualquer tipo de obra estabelece uma relação com o espetador, uma troca de sentido e significado, um testemunho histórico, social, cultural e religioso. Dessa forma, ao apreciar uma obra de arte é importante saber analisar os elementos presentes nela para que ocorra essa troca da melhor maneira possível e o espectador compreenda, então, o que o artista quis transmitir. 


Por que é importante?

A leitura de uma obra é uma atividade tão importante quanto a produção artística, pois possibilita a interpretação das imagens, compreensão e apreensão de informações, fatores fundamentais para quem vai fazer o PAS. Afinal, como sempre digo, infelizmente ninguém vai colorir na prova!

Veja alguns exemplos de questões do PAS que envolveram leitura e análise dos elementos da sintaxe visual bem como conhecimento sobre o artista ou sua época:

Então, como analisar uma obra de Arte? 

Pra falar a verdade o título da postagem não está correto! Vimos em Estética e Arte que  uma mesma obra pode despertar diferentes sensações em cada pessoa. Então não existe uma receita de como ler uma obra de arte. Mas é possível levar em consideração a época, a técnica, o tema e os recursos usados pelo artista para melhor compreender sua função. Eu gosto de seguir alguns passos básicos ao analisar uma obra:

PRIMEIRO: leia as informações do rodapé da obra (os créditos): título, autor, época, dimensão e técnica. O título quase sempre já é uma indicação do tema da obra, mas muitas obras simplesmente não tem título (lê-se Sem Título), justamente pra não influenciar sua interpretação,e aí é preciso pesquisar um pouco mais.

SEGUNDO: analise o objetivo da execução da obra (sua função). Para isso, busque informações sobre o artista, sua época e características do seu trabalho. Em algumas obras é preciso decifrar códigos e significados de símbolos apresentados, e isso só é possível por meio de pesquisa.

Função artística: através da organização dos elementos que compõem a sintaxe artística, cria composições que atraem a atenção do espectador.
Função pragmática: apresenta um caráter educacional. visa transmitir conhecimentos de todas as ordens: científicos, espirituais, políticos e culturais através da produção artística.
Função religiosa: objetiva divulgar preceitos, dogmas e eventos de uma determinada religião, para referenciar os fiéis da mesma.
Função ambiental: visa exaltar e/ou denunciar aspectos relacionados com o meio ambiente: sua beleza, preservação e, também, sua exploração.
Função individual: através da produção artística, o compositor, motivado pelos acontecimentos que o rodeiam, expressa seus sentimentos.
Função histórica: registra e retrata fatos relacionados com uma determinada época relevantes para uma civilização.
Função política: tem objetivo social ao representar eventos da ação política de uma comunidade, um povo ou nação.
Observação: além dessas funções existem outras, e todas podem coexistir em uma só obra ou projeto artístico.

TERCEIRO: perceba os elementos que a compõem (as cores, linhas, texturas, etc) e examine o direcionamento da luz. Já falei sobre os elementos básicos da composição visual aqui. Sabemos que esses elementos são capazes de comunicar sentimentos, e isso ajuda na interpretação da obra.

Tipos de análise de obra
 (ou leitura, interpretação, apreciação) 

OBJETIVA (ou visual): descreva o que todo mundo vê, sem especulações.
SUBJETIVA (ou simbólica): descreva o que você sente ao visualizá-la.
FORMAL (ou estética): analise a composição visual – a sintaxe visual -, seu contexto histórico, seu tema, sua organização. Envolve um pouco mais de pesquisa.

Para ficar mais claro, vou usar como exemplo a obra A Criação do Homem (ou O nascimento de Adão),de Michelangelo. Escolhi essa pintura por tratar-se de um tema que ainda veremos esse ano: Renascimento. Essa obra é cheia de características que marcam o estilo da época e do artista.

A Criação do Homem. Michelangelo. Pintura em afresco. 1511-1512. Capela Sistina, Roma.
1) ANÁLISE OBJETIVA 
Nessa obra podemos ver um homem barbudo vestido com uma manta. Ele parece estar voando sobre uma grande nuvem escura. Dentro dessa nuvem tem outras pessoas  que parecem estar o ajudando. Esse homem esta tentando alcançar um outro homem que repousa sobre uma rocha. Esse outro homem está nu e também se esforça para alcança-lo. Alguns anjos inclusive parecem estar assustados diante de tudo. Percebe-se uso de muitas cores, porem muito discretas e suaves. O foco da composição esta no centro, para onde se direcionam todos os olhares. 

2) ANÁLISE SUBJETIVA
Certamente se trata de uma passagem bíblica, no caso, como indica o nome da obra, o nascimento de Adão, por isso a obra tem função, predominantemente, religiosa. O homem que toca o dedo de Adão és Deus rodeado por seus anjos. Ele flutua no Céu, enquanto Adão repousa na Terra. Para mim permeia na obra um clima de tristeza por que vejo poucas expressões no rosto deles e as cores suaves transmitem delicadeza, como que para não competir com o tema. Eu sinto que os personagens forma cuidadosamente arranjados na obra pois não parecem estar em posições muito naturais e confortáveis.

3) ANÁLISE FORMAL 
Trata-se da cena do livro bíblico de Gênesis “A Criação do Homem”. O detalhe do dedo de Adão encostado ao dedo de Deus é, ao mesmo tempo, suave e forte, pois transmite o poder da criação, o momento em que Deus dá sua força divina, seu espirito santo, para o homem. O artista era um perfeito anatomista, algo muito comum no Renascimento. Por isso Deus esta sobre a figura de um cérebro, como “o cabeça” de tudo, “a mente criadora”. As formas perfeitas do corpo de Adão, evidenciadas pelo uso da luz e da sombra, indicam sua perfeição, também característica comum nas obras racionais do Renascimento. Esse racionalismo se traduzia em poucas emoções humanas, cores neutras, muito equilíbrio e simetrismo. 


Cada pessoa tem seu jeito de analisar uma obra e muitas vezes o gosto pelo artista ou pelo movimento artístico influenciam a interpretação da obra. No entanto para determinadas obras, em especial do período clássico até a modernidade, essas regrinhas ajudam bastante. Claro que, em se tratando de arte contemporânea a coisa muda bastante. Seja como for, o mais importante sempre será estudar e pesquisar sobre o artista e sua época para melhor compreender seu trabalho, mesmo que você não goste. 


Bibliografia usada: Estudo Dirigido de Artes; Ensino Médio. Volume único. Borges e Ribeiro. Brasília, DF: Editora do Centro. 2011.

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